A INCERTEZA É O NOVO NORMAL

Uma preocupação persistente zumbe no fundo de nossos cérebros, como uma espécie de zumbido.

Katie Hopkins

Uma coisa de que todos gostamos na vida, admitamos ou não, é um certo grau de certeza.

Muitos gostam de ter certeza absoluta. Cada pequeno detalhe precisa ser conhecido, planejado e reconfirmado para que eles se sintam no controle o suficiente para seguir em frente.

Para outros, as rotinas e normas criam uma espécie de certeza fácil e cotidiana que lhes permite controlar as confusões da vida e realizar tarefas úteis. É mais fácil concentrar-se no trabalho sabendo que a máquina de lavar está vazia ou que o parquímetro está pago.

Para uma pequena minoria, passaporte, sacola pequena, cartão de crédito e escova de dentes são tudo o que você precisa para ter certeza de que tem tudo de que precisa. Eu me coloco nesta última categoria – embora eu adicionasse Tylenol à lista de embalagem porque a dor é um ladrão secreto de tempo e paciência.

Qualquer que seja nosso apetite por certezas, ele se baseia em alguma noção de consistência em nossas vidas mais amplas. O que quer que aconteça em nossas cabeças, em nossos corações ou mesmo em nossas casas, nós meio que esperamos que as coisas do lado de fora da nossa porta da frente rodem da mesma forma previsível que tem acontecido por anos.

De certa forma, é reconfortante que o inverno se transformará em primavera, o trânsito sempre será horrível na sexta-feira, sua mãe sempre se sentirá excluída de alguma coisa e os advogados cobrarão caro por tudo. Ou, como meu pai gosta de lembrar à família nos momentos de comemoração, “as únicas certezas na vida são a morte e os impostos”. (Eu me pergunto se ele sabe quantos anos tem.)

Não é como se não pudéssemos lidar com a mudança. Na verdade, eu diria que somos brilhantes nisso.

Se víssemos o que estava vindo na nossa direção pela trilha, a maioria de nós sairia correndo gritando para as colinas. No entanto, o nascimento de filhos, o casamento, o divórcio, a perda repentina de um amigo ou a estranha adição de um gato de estimação que foi encontrado atrás da garagem – de alguma forma, lidamos com tudo isso em nossa vida cotidiana.

No entanto, há um espaço entre as coisas previsíveis da vida e a montanha-russa imprevisível que às vezes atinge nossa vida privada que foi totalmente perturbada.

Este é o espaço em que precisamos de certeza para enfrentar, uma certeza que nos permite trilhar junto com nossas vidas complicadas.

E agora, este é o espaço em que todos carregamos uma preocupação persistente que não conseguimos identificar. É uma espécie de zumbido, zumbindo no fundo de nossos cérebros, silenciosamente prejudicando nosso dia, assim como a dor.

Porque nossas certezas não são mais seguras.

Por anos, vivemos com o conhecimento absoluto de que as escolas estarão abertas e as crianças irão para a escola todos os dias e voltarão para casa à noite. Não pelo mero ato de partir e voltar, mas porque, como pais, queremos que nossos filhos sejam livres para aprender e crescer com os outros.

As portas da igreja estarão abertas para oração, faça chuva ou faça sol, quer a congregação se reúna ou permaneça em suas camas. Estejamos conscientemente cientes disso ou não, carregamos o conforto de que Deus estará esperando atrás da porta destrancada.

Hospitais serão abertos e médicos prontos para atender. Se o câncer mostrar sua cara feia em nossa família, podemos fazer com que seja visto – e rapidamente também.

Estarão disponíveis funerais, um marco fixo para sinalizar o fim de uma vida e o início da recuperação. Meu pai diz que quer ser enterrado em uma caixa de papelão e sem flores. Ele realizará seu desejo, mas sua família e legião de simpatizantes estarão lá para mandá-lo embora.

Os idosos em lares de idosos receberão o amor e a consideração que desejaríamos por eles e por nós mesmos.

Os festivais permitirão que nos reunamos em festa, enchendo-nos de alegria de estarmos juntos e fazendo memórias para nos transportar até a próxima vez.

Essas certezas não existem mais. Ação de graças, funerais, assistência a idosos, Natal, Ano Novo, serviços religiosos – tudo roubado de muitos de nós pelos tiranos no poder.

E abalou a todos nós, como ondas sísmicas após um terremoto. Conversei com californianos que testemunharam os terremotos de 2019 e viram o solo ondular em uma onda à frente deles, e eles dizem que nunca conseguirão ver o mundo da mesma maneira novamente. Acho que isso é verdade para todos nós agora.

Acho que nosso mundo mudou além do reparo por pelo menos uma geração. Não por causa da COVID em si, mas porque muitas coisas que eram tão importantes para nós não são mais certas.

Isso me lembra de uma época logo após o 11 de setembro, quando eu morava em Manhattan e tudo parecia fora de ordem. Andando pelo lugar, era como se alguém tivesse tirado a metade superior de uma foto e a movido para a esquerda, de modo que a parte superior e inferior não combinassem mais.

Mas – existem maneiras de silenciar a preocupação persistente em nossas cabeças, ou pelo menos acalmá-la. Quando há tanta incerteza FORA de nossa porta da frente, precisamos nos lembrar das coisas que temos certeza sobre DENTRO dela.

Tenho certeza de que Trump venceu a eleição de 2020 com base em votos legais. E estou certo de que os apoiadores de Trump nunca aceitarão Biden ou Harris.

Tenho certeza de que o nosso é o lado da alegria e da luz. Conheci muitos grandes americanos que estão nessa luta pela civilização para não ficarem seguros de que venceremos, mesmo que a linha de chegada não esteja clara.

E tenho certeza de que não serei intimidado por nenhuma das fraudes que perturbaram as coisas de que tínhamos certeza em nossas vidas: igrejas, despedidas afetuosas, cerimônias de fé, respeito pelos mais velhos ou o poder do ensino. Encontrei pastores, padres, pais e médicos que se recusam a dar uma joelhada aos tiranos. Com eles, vou resistir. Eu vou desafiar.

É verdade que vivemos em um mar de loucura. Mas a história mostra que somos mais engenhosos em tempos difíceis. Juntos construiremos ilhas de sanidade e nestas ilhas prevaleceremos.
Fonte: https: //www.frontpagemag.com/fpm/2020/11/uncertainty-new-normal-katie-hopkins/

Quando estava procurando pela foto encontrei outro artigo parecido:

DE PERTO NINGUÉM É NORMAL (OU O ‘NOVO NORMAL’)

Diante de períodos de crises de ordem política, militar, econômica ou sanitária, as sociedades mostram sua capacidade para se alterar, mas para se ‘conservar’ também

Lilia Moritz Schwarcz
Sempre desconfio das expressões que fazem sucesso rápido e acabam servindo para qualquer ocasião. Afinal, o que explica tudo também explica nada.

A expressão “novo normal” tem sido muito utilizada nos últimos meses, quando se percebeu que o coronavírus há de acarretar mudanças para todo o planeta. Isto é, que os efeitos da Covid-19 não se limitarão ao dia em que a pandemia for dada por terminada. E é certo: a história mostra que não se sai de crises como essa da mesma maneira que se entrou.

“Novo normal” não é, porém, um termo recente; tampouco se sabe a origem dele. No entanto, tem sido crescentemente associado a momentos da história em que toda a sociedade é obrigada a se reinventar diante de períodos de crises de ordem política, militar, econômica ou sanitária.

Crise quer dizer “decisão” e, portanto, parece “normal” que diante de grandes acidentes como esses, as sociedades mostrem sua capacidade para se alterar, mas para se “conservar” também. Durante muito tempo as ciências sociais, prioritariamente, se dedicaram a entender não como as sociedades mudam, mas sobretudo como elas têm essa incrível capacidade de se manter. Como dizia Lampedusa: “É preciso que algo mude para que tudo fique absolutamente igual”.

O ‘novo normal’ representa um esforço contínuo da preservação da sociedade, nem que, para que isso ocorra, ela seja levemente alterada

E esse me parece ser o “novo normal”: ele representa, no meu entender, um esforço contínuo no sentido da preservação da sociedade (e de um determinado status quo), nem que, para que isso ocorra, ela seja levemente alterada. Isso porque a humanidade, em seu longo curso, sempre lutou pela manutenção. As pessoas também preferem estados de equilíbrio, de “normalidade”, do que viver no “caos” da novidade. Por isso, se é preciso que alguma coisa se altere, o melhor é que seja bem pouco.
Considero, assim, o “novo normal” um movimento bastante conservador; no sentido primeiro da palavra: conservar. Afinal, esse seria um “novo normal” para quem? Qual seria o nosso coeficiente de “normalidade”? E qual a régua que mede e distingue o que é “normal” do que é “anormal”, ou, ainda, um “novo normal”?

Toda sociedade carrega seus próprios parâmetros e princípios, que serão mais eficientes quanto mais forem vividos como “naturais”, “normais”. A lógica da sociedade, dizia o sociólogo Émile Durkheim, no final do século 19, não corresponde à “soma dos indivíduos”. Por isso, o silêncio que carregamos conosco é uma barulhenta algazarra social, pois procura esconder os critérios que regem essas métricas e não mostra como são obrigatórios esses traços sociais, que nos parecem apenas facultativos.

Arrisco, portanto, dizer que “normal” é acreditar numa história feita apenas por homens, brancos, de classe alta, e celebrados por seus atos célebres. No jogo do “diz que não diz”, chamamos de “história universal”, uma narrativa que diz respeito aos Estados Unidos e à Europa, e em especial à Europa Central. Ela é a “normal”. Tudo o que escapar da “norma” fica jogado na lata de lixo da exceção e do que “não é normal”. Foi assim com a Revolução Haiti (1791-1804), que cometeu o “pecado” de mostrar ao mundo que escravizados podem (e devem) se rebelar e ganhar o comando de seus próprios países. Mas eles romperam com a “norma” e com o “normal”, e sofrem até os dias de hoje, com as severas consequências. Como dizia o etnólogo Claude Lévi-Strauss, “bárbaro é aquele que acredita na barbárie”. Somos nós.

Algo pode mudar, mas tudo deve permanecer basicamente como está. E esse é o terreno fértil onde se move o ‘novo normal’

Também agimos com “naturalidade”, quando dividimos as produções visuais de maneira cartesiana: arte ou artesanato; arte X artesanato. O que não dizemos quando deixamos de explicitar esses conceitos? Resposta: que arte (europeia, masculina, de classe alta) é a “norma”, já o artesanato é (com sorte) o “novo normal”. Mesmo assim, não existe termo de comparação entre eles.

Os exemplos são muitos. Mas vira e mexe um “acidente” de proporções globais tem a capacidade de escancarar essas diferenças, que preferimos, em geral, jogar debaixo do tapete. Períodos de guerra fazem isso com as pessoas, que passam a reconsiderar suas verdades. Grandes acidentes naturais – terremotos, maremotos, furacões – também têm a potencialidade de fazer com que nos movamos um pouco do terreno seguro das nossas confortáveis certezas. Mas só um pouco, pois a história mostra como, passado o perigo e a insegurança, lá estamos nós de novo habitando nossas velhas e boas verdades. Algo pode mudar, mas tudo deve permanecer basicamente como está. E esse é o terreno fértil onde se move o “novo normal”. O parâmetro é dado pelo “normal” – que continua lá, resistindo. O “novo do normal” é a cereja do bolo, a fita que envolve o presente.

Foi assim com a gripe espanhola que em dois meses assaltou a imprensa, a imaginação e a realidade das pessoas. Calcula-se que a pandemia tenha atingido, direta ou indiretamente, cerca de 50% da população mundial e levado à morte de 20 milhões a 50 milhões de pessoas: 8% ou 10% dela na faixa dos jovens. Os números eram maiores do que os da Primeira Guerra Mundial, que acabou mais ou menos na mesma época, no dia 11 de novembro de 1918, vitimando entre 20 milhões a 30 milhões de pessoas, entre soldados e população civil. No entanto, quando o “incidente” foi embora, tudo voltou ao “normal”, ou a um “novo normal”, levemente alterado por alguns hábitos de higiene, que também se perderam pelo caminho.

E eis que 2020 começou e há de terminar com a chegada desse micro-organismo que não é nem ao menos visível a olho nu. E o impossível aconteceu: as rotinas foram suspensas pelo planeta afora e até segundo aviso. Nessas horas em que o medo e a agonia falam mais forte, tendemos mesmo a sonhar melhor e a desenhar o futuro de forma mais solidária. Isso é o que a pesquisadora Rebecca Solnit chamou de “banalidade do bem”. Em momentos de crise, nossa consciência cívica aumenta e o sentimento de pertencimento social também. Passamos a achar que somos uma nação só, irmanada pela mesma realidade.

Nessas horas em que o medo e a agonia falam mais forte, tendemos mesmo a sonhar melhor e a desenhar o futuro de forma mais solidária

E é nessas horas que ao imaginarmos o nosso “normal”, o projetamos para os demais, repaginando-o como um “novo normal”. Somos, porém, um país em que mais de 20% das pessoas vivem em moradias de um cômodo, onde residem quatro ou mais habitantes. No Brasil, 50% das casas não têm acesso ao esgoto sanitário. Trinta e três milhões de brasileiros não contam em seus lares com abastecimento de água confiável. E, mesmo assim, definimos que no “novo normal” – que não tem tempo ou espaço – não viajaremos tanto, não compraremos tantas roupas, não seremos tão consumistas, cozinharemos (quando der) e até arrumaremos a casa. A pergunta, mais uma vez, é a seguinte: “novo normal” para quem?

Há quem diga também que “novo normal” tem a ver com conectividade. Com a maneira como acionamos a energia e nos comunicamos e nos libertamos a partir da tecnologia; grande quimera do século 20. A PNAD Contínua de TIC de 2018 mostrou, todavia, que uma em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet. Portanto, essa opção ao “novo normal”— “não vou mais estar online o dia todo” – corresponde a que realidade?

Muitos têm defendido a ideia de que esses tempos de pandemia romperam com o preconceito contra a educação remota. Ou seja, que a pandemia nos ensinou a aprender de dentro de casa e no recanto do lar. No entanto, é essa mesma crise na saúde pública que tem acentuado e ampliado as iniquidades na área da educação. Existem alunos que têm seu próprio computador, estudam na calma do seu quarto, e dispõem de toda uma família estruturada pronta para dar amparo nesse momento de “novo normal” que, sem dúvida, atrapalhou (e muito) a rotina dos pais e mães. Não discordo ou discuto. Para eles, o “novo normal” é um estado quiçá passageiro. Mas o que dizer de famílias que receberam o material impresso e organizado bravamente pelas escolas públicas, mas não têm lápis e borracha em casa? Muito menos acesso à internet? Nesse caso vive-se mais do mesmo “normal”.

O conceito de “novo normal” também parte e tem como patamar silencioso, o conceito romântico e idealizado de lar, que faz todo sentido para um determinado grupo social. Não para todos. É por isso que durante a pandemia, o “novo normal” foi também o aumento do feminicídio e do infanticídio, mesmo que com uma imensa subnotificação. E o mais estarrecedor nesse “novo normal” é, justamente, “o velho normal”. Quando existe a denúncia, ela recai sempre por sobre parentes, pais, tios, mães e amigos próximos. O lar e a casa podem ser, portanto, lugares tão perigosos como quaisquer outros.

Não sou contra prognósticos otimistas. Só desconfio deles. Também torço para que saiamos desse estado de anomia, diferentes. Tomara que esse “novo normal” resulte num país mais generoso, plural, inclusivo, cidadão e, sendo assim, republicano. Esse deveria ser o nosso “normal”; mas aceito se a regra mandar que ele seja um “novo normal”.

Se o ‘novo normal’ for uma espécie de estado de exceção, ele (então) confirma a regra. Se não for, será mais uma convenção conservadora

Homens e mulheres são seres classificadores. Classificam para assim se sentirem seguros nem que seja num “novo normal”. Por isso damos nomes aos planetas, aos animais, aos vírus, aos países, às doenças e a nós mesmos. Só dessa maneira nos sentimos plenos e de posse do controle.

Penso que provérbios são peças de linguagem feitas para iludir. Muitas vezes os citamos sem termos certeza do significado. Vou evocar um por aqui: “A exceção confirma a regra”. Se o “novo normal” for uma espécie de estado de exceção, ele (então) confirma a regra. Se não for, se tiver vindo para ficar, será mais uma das nossas convenções conservadoras que pretendem manter, não revolucionar.

Afinal, e como diz Caetano Veloso num dos versos de “Vaca Profana”, “de perto ninguém é normal”. Quem sabe o “novo normal” faça sentido apenas de longe. Numa distância que acomoda; não incomoda.

Bem-vindos ao velho/novo normal. É hora de reconhecer, como poetou Carlos Drummond de Andrade, que “toda história é remorso”.

Imagem: Bruna Torial (intervenção da artista na obra “Operários” (1933), de Tarsila do Amaral)

LILIA MORITZ SCHWARCZ é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “Brasil: Uma Biografia” (Cia das Letras, 2015), com Heloisa Starling, “Dicionário da Escravidão e Liberdade” (Cia das Letras, 2018), com Flavio Gomes e “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (Companhia das Letras, 2019). Foi curadora de uma série de exposições e atualmente é curadora-adjunta do Masp Fonte:https://gamarevista.com.br/sociedade/de-perto-ninguem-e-normal-ou-o-novo-normal/

Bons Negócios !!

 

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